Ingredientes

Ingredientes

Quando vemos a lista de ingredientes que vão na cerveja, água, lúpulo, cevada maltada e levedura, podemos achar que se trata de uma bebida sem mistérios, certo?

Errado, nós também achavamos isso. Mas algumas aventuras como cervejeiro caseiro, mostrou que estavamos enganados.

Apesar dos poucos ingredientes, podemos ter um grande número de variações, produzida por eles.

Malte

Written by André Costa on Monday, 05 March 2012. Posted in Ingredientes

A maioria das pessoas sabe que o pão é feito do grão, mas nem todo bebedor regular percebe que o ponto de partida para um copo de cerveja é um campo de cereal, em geral cevada, mas possivelmente outros, como trigo, aveia, arroz, espelta, painço e até sogo

AgrariaFalar sobre o Malte é um tanto complicado, primeiramente pela importância que ele tem na cerveja, é com ele que obtemos, cor, aroma, corpo, sabor e outras características sensoriais da cerveja. Segundo porque o malte não é um produto que já vem pronto na sua forma natural, para chegar a ser malte, ele sofre uma transformação. 

Malte era conhecido antigamente como a "alma" da cerveja, matéria-prima que tem capacidade alquímica de proporcionar cor e aroma, bem como a rica e característica combinação de sabores. Ele é indispensável para cerveja, pois é por ele que se fornece os açúcares essenciais para que a levedura se alimente durante o processo de fermentação, cujos subprodutos são dióxido de carbono e álcool.

Porém o malte é um produto transformado do grão de cevada ou outro cereal como arroz, trigo, aveia, milho e etc, que fora introduzido em um processo controlando à germinação e depois seco, transformando bioquimicamente os grãos em malte. Esse processo é conhecido como Maltagem.

Antigamente esse processo de maltagem era realizado nas próprias cervejarias, hoje em dia há empresas especializadas em produzir o malte. Essas empresas são chamadas de maltarias. 

Vamos entender rapidamente o processo de maltagem, que é dividido em três etapas:

Maceração: Para que a maceração ocorra, a cevada necessita de água, oxigênio e temperatura. Os grão são submersos em água, elevando a temperatura interna para ativar o processo de desenvolvimento embrionário, que é o crescimento da radícula e folícula. Alterna-se entre períodos secos (3-5 hrs) e úmidos (14-18 hrs), na fase úmida o grão submerso é aerado de forma intermitente, nesta fase a umidade do grão vai de 12% para aproximadamente 40%.

Germinação: Nesta fase o grão precisa de muita energia e nutrientes para que ocorra a germinação, ou seja, a formação de uma nova planta. A Giberelina, um hormônio presente na cevada, induz o processo de germinação, iniciando pela formação e atenuação das enzimas. Então o amido começa a ser quebrado em glicose que serve como fonte de energia para o embrião, assim se formam as raízes e as folhas. Nesta fase a temperatura, umidade e aeração são controladas. 

Secagem e Torrefação: A secagem é a redução da umidade do grão de 45% para 4-5%, que é realizada de duas etapas, a pré-secagem, que reduz a umidade do grão de 45% para 10-14% utilizando-se grande quantidade de ar quente, durante (12-20 hrs), e a temperatura não pode ultrapassar 55°C ponto de ruptura, com isso, encerramos os processos químicos e biológicos das susbstâncias, interrompendo o crescimento das radículas e folículos. Depois temos a secagem que reduz a umidade do grão para 4-5%, a temperatura final da torrefação é quem vai determinar o tipo de malte que teremos: aroma, cor e paladar característicos.

Agora que aprendemos como obtemos o malte, devemos saber que nem todo cereal serve para a produção de cerveja. Ele deve ter algumas qualidades específicas, as mais importantes são o conteúdo de proteína, a taxa de gordura, o rendimento da extração e a capacidade de germinação. Somente os grão mais nobres se destinam à cerveja, apenas cerca de 15%.

Mas por que o principal grão utilizado é a cevada?
A cevada tem algumas características que a tornam mais adequada para a produção de cerveja do que outros cereais:

- Possui alto teor de amido, o que torna atrativa em termos de custos;
- Quando maltada, possui um teor elevado de enzimas (proteínas específicas) que ajudam no processo de fabricação do mosto, principalmente na quebra do amido em açúcares;
- Contém outras proteínas que proporcionam equilíbrio nos efeitos em relação à espuma, ao corpo e a sua estabilidade coloidal (fator fundamental para a manutenção das características da cerveja por mais tempo.);
- Possui teor de lipídios relativamente baixo, o que é vantajoso para a estabilidade do sabor;
- É mais barata e fácil de maltar do que outros cereais.

Há dois tipos de cevadas cultivadas para a produção de cerveja, a cevada de duas fileiras (Hordeum distycum) e a cevada de seis fileiras (Hordeum hexastycum). significa que as sementes da cevada crescem em duas ou seis fileiras ao longo do caule central. Os europeus costumam utilizar a cevada de duas fileiras, porque a razão amido/casca é maior, possui mais extrato, cor mais clara, e todos os grão são simétricos. Os americanos preferem a cevada de seis fileiras, pois é de cultivo mais econômico em climas quentes e tem maior concentração de enzimas que convertem o amido em açúcar, seus grãos são normalmente retorcidos.

O cultivo da cevada iniciou entre 6000 a.C. e 7000 a.C., na área atualmente ocupada no Oriente Médio, sendo nessa época o principal cereal utilizado na alimentação humana, mais tarde substituída pelo trigo.
A primeira evidência arqueológica é do Epipaleolítico, em Ohalo, perto do Mar da Galileia. Os resquícios encontrados foram datados de aproximadamente 8500 a.C. O primeiro indício de cevada domesticada ocorrem em sítios neolíticos Acerâmicos, como no Tell Abu Hureyra, na Síria. A cevada é cultivada na Coreia desde o período da Cerâmica Mumun (c. 1500-850 a.C.) Cerveja de cevada foi provavelmente a primeira bebida desenvolvida por humanos no Neolítico.  A cevada foi mais tarde utilizada como moeda. No Egito foi utilizada tanto como ingrediente do pão como da cerveja.
Na Europa Medieval, pão feito de cevada era considerado comida de gente humilde, enquanto produtos feitos de trigo eram consumidos pelas classes mais altas. A batata substituiu massivamente a cevada, na Europa Oriental no século 19 como alimento.

O Brasil produz cevada em escala comercial desde 1930. Dentre os vários tipos de cevada explorados, a cevada cervejeira é a única produzida comercialmente no Brasil.A produção brasileira de cevada está concentrada na Região Sul, com cultivo também nos estados de Goiás, de Minas Gerais e de São Paulo, sendo cultivada em mais de 140 milhectares, e a produção é de aproximadamente 380 mil toneladas. Há três maltarias em atividade, instaladas no Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. O resto da cevada é importada de países como Argentina e Uruguai. O ciclo total da cultura até a colheita no Brasil é de aproximadamente 110 dias.

Já nos aprofundamos um pouco na história, cultivo e transformação bioquímica, agora vamos conhecer os tipos mais comuns de maltes que encontramos para a fabricação de cerveja:

Isso é cereal, com o qual qualquer idiota pode fazer pão: mas Deus tinha um propósito mais divino de consumo. Vamos louvá-lo e glorificá-lo pela cerveja. - Frei Tuck personagem da história ficcional de Robin Hood (século XIII) 
Maltes base são responsáveis pela maior parte do poder enzimático do mosto, pois normalmente eles representam o maior percentual de grãos na fabricação da cerveja. Entre eles podemos citar:

- Malte Lager: É predominantemente utilizado na fabricação de cervejas Lager, porém utiliza-se também para cervejas Ales, tem cor clara e aroma de cereal. Depois de germinar, o malte lager é aquecida cuidadosamente em um forno a 32°C o primeiro dia, desidratada a 49°C-95,5°C durante 12-20 horas, e depois curada a 79°C-85°C durante 4-48 horas, dependendo do fabricante. Isto produz um malte com um delicado e suave aroma, e excelente potencial enzimático.

- Malte Pale Ale: É predominantemente utilizado na fabricação de cervejas Ales, tem cor pouco mais escura que o malte lager, e seu gosto remete a biscoito e ligeiramente torrado. Ele é assado a temperaturas mais altas que o malte lager.

- Malte de Trigo ou Wheat: É predominantemente utilizado na fabricação de cervejas de trigo, podendo ser utilizado até 100% da matéria-prima, também é utilizado em cervejas com malte de cevada devido as suas proteínas maiores, que deixam a cerveja mais encorpada e com uma maior estabilidade de espuma em contra partida com maior turvação. Não possui cascas, sua cor é clara e aroma de banana.

- Malte de Centeio: Assim como o malte de trigo, não possui cascas. É um malte pouco mais escuro do que o malte de cevada e trigo, possui um rendimento baixo e pode dar uma coloração avermelhada à cerveja.

Maltes especiais quase não fornecem poderes enzimáticos ao mosto, porém são eles que dão características únicas a cerveja, como cor, sabor, corpo, aroma e etc. Esses maltes são acrescentados em percentuais de grãos bem abaixo do malte base. Entre eles, temos os maltes  torrados e os maltes caramelo.

Maltes torrados, são produzidos por secagem a altas temperaturas seguidas de torrefação. Os tempos e temperaturas, determinaram o tipo de malte, como já foi descrito acima. classificam-se nele os maltes de cores âmbar, marrom, preto, escuro e chocolate. Entre as variedades temos:
- Cevada torrada: bastante amargo, é normalmente utilizado em cervejas do estilo Irish Stout, tem aroma intenso de café tostado e queimado.
- Escuro: malte bastante usado em cervejas do estilo Stout e sua aparência e gosto é de café torrado.
- Chocolate: malte que tem o nome devido a sua cor apresentada, utilizado para cervejas do estilo Porter, Brown Ale e Stout, confere à cerveja aromas de caramelo queimado, chocolate amargo e café.
- Munich: coloração âmbar, é bastante utilizado em cervejas do estilo Oktoberfest e algumas Pale Ales, confere sabor bem maltado à cerveja.
- Vienna: é mais suave e doce que o Munich e é utilizado em cervejas do estilo Bock.

Maltes Caramelo, são produzidos com um processo especial de calor por cozido depois do malteado, o qual cristaliza os açúcares. Estes açúcares são caramelizados formando cadeias mais largas que não são convertidas em açúcares simples pelas enzimas durante a mostura. Isto dá como resultado uma cerveja de sabor mais completo, mais malteado e com doçura de caramelo. Estes maltes se usam para quase todas as ales e para as lager de mais alta gravidade. Entre as variedades temos:
Caramelo 10 10L. Este malte contribui uma ligeira doçura como a mel e um pouco de corpo a a cerveja terminada.
Caramelo 40 40L. A cor adicional e a suave doçura de caramelo deste malte são perfeitos para as pale ales e amber lagers.
Caramelo 60 60L. Este é o malte caramel mais usualmente usada, também conhecida como medium cristal. É apropriada para pale ales, Englis style bitters, porters e stouts. Contribui com sabor a caramelo e corpo à cerveja.
Caramelo 80 80L. É usada para fabricar cervejas avermelhadas e contribui um ligeiro aroma a caramelo agridoce.
Caramelo 120 120L. Este malte contribui muita cor e aroma a caramelo agridoce. Em pequenas quantidades é apropriada para adicionar complexidade, ou em maior quantidade para old ales, barleywines e doppelbocks.
Special B 220L. Esta única Belgian malt tem aroma torrado, nogado e doce. Usada com moderação (0.11 kg - 0.23 kg), é muito boa em brown ales, porter e doppelbocks. Em quantidades maiores, mais de meia libera em um preparado de 18,9 litros, contribuirá aroma a ameixa (o qual pode ser apropriado em pequenas quantidades em uma barleywine).



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Água

Written by André Costa on Thursday, 11 August 2011. Posted in Ingredientes

Mais de 90% da cerveja é feita de água, mas não é só isso...

Água

Água é um ingrediente fundamental e super importante no processo de fabricação da cerveja. Ela influência diretamente no sabor, espuma, estabilidade sensorial e drinkability. 

Mas afinal de contas, quando ouvimos falar que a água vem diretamente das montanhas, dos mais profundos vales e etc, faz alguma diferença?

Antigamente sim, pois não tinhamos um processo para tratamento da água, então realmente fazia diferença a origem da água utilizada. Por terem grandes suprimentos de água na antiguidade, Pilsen e Munique se tormaram grandes centros cervejeiros.

Mas hoje em dia, isso não ocorre, pois independente de onde utilizamos a água, podemos deixa-la mais dura ou mole, controlar o pH entre outras coisas, ou seja, deixamos a água exatamente como desejamos.

Quando ouvimos falar que uma cerveja é melhor que a outra devido a origem de sua água, é MITO!


Temos dois tipos de água na fabricação de cerveja:

  • Água Cervejeira: Que é utilizada diretamente na fabricação da cerveja. Primeiramente  a adicionamos ao mosto. Em uma segunda etapa, a utilizamos no processo de lavagem do mosto.
  • Água de Processo: Utilizada na limpeza e desinfecção de recipientes, tanques, garrafas e outros. Também utilizamos essa água para resfriamento da cerveja.

Fontes de água:

  • Água de Superfície: Encontrada em rios, represas, barragens e lagos, sofrem alterações com as mudanças climáticas. Na sua composição normalmente temos poucos minerais, grandes quantidades de cargas orgânicas e materiais em suspensão, além do grande risco de contaminação. A água de superfície tem que passar por complexos e caros tratamentos para ser aplicada na produção de cerveja.
  • Água Subterrânea: Esse estilo de água tem como principais características o baixo risco de contaminação e materiais em suspensão devido ao efeito filtrante do solo, não sofre alterações sazonais, mas sua composição depende totalmente da hidrogeologia do local. A vantagem é que temos um custo menor no tratamento dessa água para ser aplicada na produção de cerveja.

Tratamento da água:
 
Esse é um processo super importante, pois é nele que fazemos remoção de partículas em suspensão, remoção de ferro, correção do sabor e paladar, correção do pH, correção da dureza e eliminação de microrganismos. Temos várias maneiras de tratar a água e deixa-la em boas condições para fabricação de cerveja. Entre os métodos, podemos citar:
  • Sendimentação e Filtração, para remoção de compostos insolúveis;
  • Métodos Químicos e Físicos, para remoção de compostos solúveis;
  • Filtração, Fervura, Cloro e Ozônio, para remoção ou inativação de microrganismos;
  • Fervura + Carbonatação, Filtração por Membranas, para remoção do oxigênio, esse sim é o grande vilão da cerveja.

 
A água tem impacto direto na cerveja de acordo com suas propriedades químicas. Podemos ter controle sobre ela, medindo o seu pH (potencial hidrogeniônico) e corrigindo-o, de acordo com o estilo de cerveja que se quer fazer. 
 
O que sabemos é que existem alguns números considerados ideal: Na mostura, o pH da água deve estar entre 5,3 e 5,5. Enquanto na fervura, devemos ter entre 5,1 e 5,3. A alteração nesses valores, pode impactar cor da cerveja, amargor desagradável e ações enzimáticas em geral.

 
Dureza da água é a propriedade relacionada com a concentração de íons de determinados minerais dissolvidos nesta substância. A dureza da água é predominantemente causada pela presença de sais de Cálcio e Magnésio, de modo que os principais íons levados em consideração na medição são os de Cálcio (Ca2+) e Magnésio (Mg2+). Eventualmente  também o Zinco, Ferro ou Alumínio podem ser levados em conta na aferição da dureza.
  • Dureza temporária: é gerada pela presença de carbonatos e bicarbonatos, que podem ser eliminadas por meio de fervura da água. Influência no pH, aumentando o seu valor.
  • Dureza permanente: é devida a cloretos, nitratos e sulfatos, que não são susceptíveis à fervura. Influência no pH, diminuindo o seu valor.
  • Dureza geral: à somatória da dureza temporária e permanente dá-se o nome de "Dureza Geral" (ou total) da água.

A dureza da água é medida geralmente com base na quantidade de Partes por milhão de Carbonato de Cálcio CaCO3, também representada como mg/l de Cálcio CaCO3. Quanto maior a quantidade de "ppm", mais "dura" será considerada a água.

Existem ainda outras unidades utilizadas em maior ou menor frequência para se descrever a dureza da água, como o grau alemão, comum em conjuntos de teste rápido, o inglês, o francês ou o americano, dentre outros. A tabela abaixo mostra a relação entre algumas dessas unidades.

 

 
 
Classificação e propriedades:
 

 
Íons da água:
  • Cálcio: Tem grande influência no sabor e na estabilidade coloidal da cerveja. Podemos corrigir os valores encontrados com adição de CaCl2 (Cloreto de Cálcio) ou CaS04 (Sulfato de Cálcio).
    • Redução do pH;
    • Ajuda na floculação da levedura;
    • Estimula o metabolismo da levedura;
    • Diminui chances de ocorrer o "gushing";
    • Aumenta o rendimento do mosto.
  • Magnésio: 
    • Redução do pH;
    • Paladar da cerveja;
  • Ferro: Considerado um grande vilão da cerveja, quando encontrado em quantidades acima de 0,1 mg/l. Para nossa sorte, grande parte do ferro fica retido no bagaço.
    • Favorece oxidação da cerveja;
    • Acelera degeneração das leveduras;
    • Inibe ações de enzimas;
    • Fornece a cerveja amargor desagradável;
    • Prejudica estabilidade coloidal;
    • Escurece a espuma.
  • Zinco: Valores referenciais ótimos em torno de 0,15ppm, porém em excesso (0,6 mg/l), causa intoxicação da levedura. Pode-se corrigir o zinco com adição de Sulfato de Zinco durante o resfriamento do mosto.
    • Contribui para ativação da fermentação

 
Podemos citar aqui mais alguns exemplos de interferência de Íons na cerveja, correção, medição entre outras muitas coisas, mas acredito que já ficamos técnicos demais e não é essa a ideia.
 
A ideia é realmente demonstrar como podemos "brincar" com a água e como é super importante e algumas vezes complexo o tratamento da mesma.
 
Referências: 
ABS - Curso de Sommelier de Cervejas;
Wikipédia;
How To Brew - John Palmer.